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quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Benzedeira de Cerro Largo

Observa-se a ironia que Joaquim faz com Mariana ao saber que ela teria ido à uma benzedeira do Bairro Brasília da Cidade de Cerro Largo.

_ Mariana! Você pensa que os benzimentos para suas dores de cabeça têm algum fundamento?

_ Claro que sim. A minha benzedeira sempre curou muitas pessoas, as quais os médicos diziam não ter mais cura.

_ É muito errado o que você está fazendo. Joaquim diz com certa ironia.

_ Acredito nela. Desde criança meus pais acreditam nela e eu também.

_ Tenho certeza de que nem um médico especialista resolve se seu problema, não perca tempo.

_ Não diga isso, Joaquim. Se você soubesse como eu tenho sofrido, acho que é inveja, das bravas.

Joaquim fitou o seu olhar em Mariana, segurou em suas mãos e com muita convicção lhe disse:

_ O melhor especialista no assunto sou eu. Desde muito tempo eu lhe admiro, sou apaixonado por você. Seu problema se resolve com um grande amor. Sou louco por você.

- Não grita, pode o Marcelo ficar sabendo e achar que eu também gosto de você e os comentários em Cerro Largo com certeza vão surgir. Principalmente na loja onde ele trabalha e todos o conhecem.

_ Não precisa o Marcelo anunciar, vou anunciar que te amo no Jornal Gazeta e na Folha da Produção. Hahaha!!!

- Você é louco, estou doente mesmo e quem vai me curar é a Dona Anita e não suas declarações malucas.

- Tu acreditas mesmo em benzimentos? Perguntou-lhe.

Foi nesse momento que Mariana percebeu que existem muitos mistérios e coisas malucas nesse mundo. Já que Joaquim não acreditava nela, paciência; o que importa é que ela tem fé em benzimentos. E ela não gostava dele o suficiente, portanto o maluco ali era ele e não ela. Afinal desde que o conheceu observa esse jeito diferente dele ver as coisas. Já o Marcelo sim, é uma pessoa bem diferente, realmente pode considerar como amigo.

As três personagens têm histórias diferentes de suas vidas. Vamos conhecê-las. Marcelo e Mariana se conhecem desde criança, brincavam juntos, estudavam na Escola Padre Traezel, foram colegas desde as séries iniciais. Mariana professora municipal gosta muito do que faz, mas vive com dores de cabeça frequentemente, por esse motivo passa tirando atestado e faltando muito ao trabalho. Marcelo é um jovem muito responsável, trabalha nas Lojas Becker, onde é muito querido por todos. Joaquim apareceu em Cerro Largo há alguns anos atrás. Sujeito meio estranho que diz ter vindo de São Borja e com hábitos estranhos, não tem religião alguma, gosta de fazer festas, está sempre de bem com a vida, sem stresse. Não tem emprego fixo, diz ele que vive da pensão que seu pai o deixou.

Marcelo se mudou para a Rua Major Antônio Cardoso, pertinho do anexo II da Prefeitura Municipal e ali mora sozinho na maior paz. Toda à tardinha após o retorno do trabalho tem o hábito de tomar seu chimarrão.

- Veja quem encontrei, nem avisa que mudou de endereço? Diz Joaquim com a maior euforia.

- Acompanha-me no chimarrão, ou está muito ocupado.

_ É claro que tenho esse tempo. Joaquim sentou-se muito a vontade e começou a contar vantagens de suas aventuras amorosas e de repente lembrou-se de Mariana e com muita ironia disse a Marcelo.

_ Acredita que Mariana anda novamente com dores de cabeça.

_ Esse problema preocupa muito.

Sei realmente o que falta para ela, um namorado como eu. Ela é uma pessoa mal amada.

_ Joaquim! Você me surpreende muito. Ela realmente é doente. Precisa se tratar com bons médicos e para quem acredita em benzimentos que o faça.

_ A vida é para ser vivida e não ficar lamentando.

_ Vejo a situação de outra forma. Conheço Mariana desde criança, ela sempre teve que batalhar pelos seus estudos e trabalho. Perdeu sua mãe muito jovem e assumiu muitas responsabilidades ao mesmo tempo. Vou procurar ajudá-la.

_ Que ajudá-la nada! Vamos tomar uma cerveja lá no centro, ver umas gurias, nos divertir.

_ Você tem razão. Eu estou somente do trabalho para casa e não saio me divertir um pouco.

Os dois amigos foram para o centro de Cerro Largo. Em frente à praça, onde estavam muitos jovens tomando sua cervejinha, escutando som muito alto e trocando ideias com os amigos e amigas. Encontraram muitos conhecidos e ali ficaram rindo, conversando. Mas Marcelo estava mesmo ali de corpo presente, porque seu pensamento estava ligado a Mariana. Eles eram mais que amigos, ele tinha um carinho muito especial por ela.

Marcelo e Joaquim, cada um pegou o rumo de sua casa. Joaquim atirou-se na cama do jeito que chegou e ali adormeceu, sem nenhuma preocupação. Ele mesmo afirmava que seu maior compromisso era com a liberdade. Marcelo como era um rapaz muito organizado e responsável, chegou tomou seu banho escovou seus dentes e foi deitar-se. Mas quem diz que consegue dormir, a conversa de Joaquim sobre Mariana mexeu muito com ele. Levantou, pois não conseguia dormir mesmo, tomou água, ligou a televisão e ali ficou por volta de duas horas. Muito preocupado tomou a seguinte decisão. Não posso deixar que Joaquim se aproxime mais de Mariana, pois ela não merece um sujeito como ele. Amanhã vou conversar com ela e procurar ajudá-la.

No outro dia após sair do seu trabalho, Marcelo foi até o Bairro Brasília onde sua amiga morava e lá a encontrou muito aborrecida.

_ Mariana! O que está acontecendo com você? Soube que está novamente de laudo em seu trabalho, anda doente? O que está acontecendo. Estou preocupado.

_ A benzedeira me disse que o meu maior problema é alguém do meu convívio, é uma pessoa que me faz mal hoje e futuramente vai me complicar muito a minha vida e de meus amigos.

_ Seu grande problema eu sei que é o Joaquim. Sujeito muito atrevido, folgado.Soube a versão dele, o que ele pensa sobre você. Mas estou aqui para ajudá-la. Sou realmente seu amigo e quero o seu bem.

_ Fico contente de saber que posso contar com você.

_ Para mudarmos de conversa, estou convidando para amanhã à noite irmos ao Restaurante Missões no rodízio de pizzas, você precisa sair um pouco, distrair-se, conviver com as pessoas, não pode ficar trancada em casa. Podemos convidar mais alguém para ficar mais divertido.

_ Não estou em condições de sair. Minhas dores de cabeça.....

Marcelo não deixou terminar de falar e afirmou com muita convicção:

_ Vamos fazer um trato, não se fala mais em dor de cabeça, doença, Joaquim... Você é tão jovem para estar agindo dessa forma. Antes que ela lhe respondesse, ele afirmou:

_ Amanhã às 20 horas espere pronta que eu venho lhe busca para sairmos.

Nessa noite quem não dormiu foi ela. Deitou-se e ficou recordando desde criança, que eles brincavam juntos e eram colegas de aula. Marcelo sempre foi seu amigo, respeitava-a, defendia-a, ajudava em seus trabalhos de aula. Pois ele tinha mais facilidade em aprender do que ela, principalmente nas disciplinas que exigiam raciocínio lógico. Será que ele estava preocupado mesmo com ela? Como amigo? Ou será uma grande paixão? O que a benzedeira lhe havia dito iria acontecer? Quem era realmente a pessoa próxima que era seu mal?

No outro dia, sábado Mariana acordou um pouco mais animada e resolveu ir a um salão para arrumar-se um pouco. Pois realmente sua aparência estava muito feia. Pontualmente Marcelo chega e vão ao rodízio de pizzas. Foi uma noite bem agradável, até parecia que ela estava mais animada.

Os dias e meses formam se passando e eles continuaram a sair e Mariana começou a ficar muito animada, voltou a trabalhar e quando viram a amizade tinha se transformado em namoro. Por volta de um ano estavam de casamento marcado.

Durante esse tempo Joaquim estava um pouco afastado de Cerro Largo, segundo ele estava na sua terra Natal, tratando de negócios. Para Mariana e Marcelo estava tudo ocorrendo muito bem, principalmente os preparativos para o casamento.

_ Marcelo! Já falei com o padre e a data do nosso casamento ficou marcada para o dia 10 de setembro na Igreja Matriz. Você concorda com essa data e local ou tem outra ideia?

_Para mim está ótimo.

- Que maravilhoso! Pois sempre sonhei em me casar na Igreja Matriz.

- E os convidados? Temos que fazer a lista o quanto antes.

Os dias se passaram e os dois estavam tão envolvidos com os preparativos, que esqueceram Joaquim. Já estavam no dia dois do mês de setembro e certa tardinha Joaquim apareceu na casa de Marcelo.

_ Vim ver se você ainda mora aqui, pois desde que começou a namorar Mariana esqueceu os amigos. Estou sabendo de todos os acontecimentos e sei que irá se casar e esqueceu-se do velho amigo.

_ Joaquim! Faremos uma comemoração somente para familiares.

_ Ou você está com medo de perder a noiva. Falou ironicamente e saiu sem despedir-se.

Marcelo ficou muito irritado e ao mesmo tempo preocupado com Joaquim, pois eles sempre foi um sujeito estranho. E as informações da benzedeira? Ninguém tinha muitas informações sobre ele, só se sabia que era natural de São Borja, ele nunca falava sobre seu passado. Como estava em Cerro Largo, de repente sumia. Quando retornava lhe perguntavam onde estava ele sempre respondia:

_ Curtindo minha liberdade.

Chegou o esperado dia do casamento, 10 de setembro de 2010. Tudo muito bem planejado, tinha tudo para dar certo. Começaram chegar os convidados para a cerimônia religiosa, já estavam todos lá, menos Mariana. O noivo como de costume estava muito nervoso e preocupado. Porém a noiva não chegava. O tempo foi passando e o nervosismo tomou conta dos convidados. Saíram em busca da noiva, queriam saber o porquê do atraso. Mas tudo em vão, não encontravam em lugar algum.

Por volta das 22 horas a cidade de Cerro Largo estava movimentada pelo acontecido, policiais, familiares, conhecidos. Todos envolvidos nas buscas. Quando Marcelo passava pela Rua João Ten Caten, nas proximidades do Parque de Exposições viu um vulto, pois a rua estava mal iluminada e ele parou. Para sua surpresa era Joaquim.

_ Venha comigo, sei que estão todos a procura de Mariana posso ajudá-los.

_ Onde está minha noiva? Diz Marcelo muito angustiado.

_ Venha comigo.

Marcelo acompanhou Joaquim para dentro do parque e para surpresa dele Mariana estava lá amarrada e amordaçada. Joaquim com a maior frieza pegou um revólver e sem vacilar atirou em Mariana. Marcelo lembrou da benzedeira, desesperado quis ir ao encontro dela e também foi morto. Logo em seguida Joaquim também tirou sua própria vida. Foi uma cena horrível e inesquecível para Cerro Largo, que é uma cidade tão tranquila. Felizmente após passar alguns meses do fato lamentável, Cerro Largo voltou a sua paz, e nada de grave aconteceu.

FIM.

2 comentários:

  1. Pois nosso texto é trágico.......Devemos pensar pois na maioria das vezes os livros terminam em "viveram felizes para sempre"!

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  2. Bom seria se todos os finais fossem felizes não é?? Ficou ótima a releitura!
    Parabéns!

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